sábado, 12 de julho de 2008


De repente, assim, como acontecem as coisas especiais, comecei a viver. Assim, tão de repente quanto um suspiro apaixonado, como a tardia percepção da importância de algo, percebi q tinha encontrado alguma coisa q fez com q eu notasse um vazio no meu peito. Eu tinha um buraco bem grande na minha alma. E até então, eu não sentia que ele estava lá. Parado. Indolor. Foi preciso esse sacolejo repentino.
De repente, senti a necessidade de trazer a tona, o dom mais divino q Deus pode conceder a uma criatura: eu queria amar. Eu queria poder cuidar de outra pessoa, mas de uma forma tão diferente, que eu pensava estar louca.
De repente, me vi assim. Perdida do meu caminho, cansativo e rotineiro. De repente, senti a necessidade visceral e mística, de querer estar em outro corpo, com outro corpo e além. Senti a vontade de alisar pêlos, ouvir sussurros, permitir carícias.
De repente, senti que aquele vazio, foi aumentando proporcionalmente à medida em que ele não estava presente. Senti a dor e o prazer de ser correspondida na loucura. Senti o desespero de ter e não ter as coisas ao alcance do meu coração. Senti que mesmo ao lado, eu não tinha nada. E foi aí q eu descobri: era tarde demais pra separar uma coisa da outra. Mesmo sem ter compartilhados cobertas, já estava infectada. Então eu transcendi minha própria consciência, e eu já não era mais eu. Eu, éramos nós. Eu, singular, me transformei em plural. E comecei a amar, muito além e fora de mim. EU TE AMO, fora das convenções, fora dos sermões, além de estrelas, passado da lua, em várias galáxias.

Nua, me desprotejo do mundo.

Perco minhas defesas

Me revelo pura

Nua, procuro teu corpo

Renego imperfeições e vôo livre em prazeres

Minhas vestes são teus braços

E teus beijos

Teus pêlos e meus medos

São de repente não te ter mais

Não te ver mais

E precisar dos teus apelos.

É tão engraçado como ventos de chuva

Me assobiam teu nome.

É tão difícil cruzar qualquer rua

Perto de alguma árvore, sem lembrar de nós próprios

Em frente aquela casa amarela.

Tudo me lembra tuas mãos pequenas,

Teu dorso largo

Tua voz grave e teu cigarro.

Sinto falta de nós

Sinto dores em andar só

E fico ouvindo ventos em tardes quentes

E vendo reviravoltas de tempos.


Ele foi se desligando de mim

Assim, bem lentamente para que eu não percebesse.

Ele sentiu medo do arrepio frio da espinha

Das unhas vermelhas a cortar-lhe o dorso.

Ele sentiu medo de nós mesmos.

E então, quando me dei por conta

O tempo tinha corrido tão depressa,

Que não deu pra sentir nem os grãos de areia caírem

Entre meus dedos.

E ele já tinha ido embora.

Melhor assim. Não nasci pra compartilhar corpos.